sobre as reticências

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

e você se foi, lapso de lucidez. e nós fomos, apesar de ainda sermos.
porque quando se torna nítido que você sou eu,
e eu me encho de você,
talvez, se fôssemos,
o mundo se acab...
mas,
entretanto,
um minuto. um minuto dentro de sua retina é o bastante para afundar-me de novo, mar negro de caos
... e então somos nós novamente, no entrelaçado surrealista e masoquista de quatro pernas que, de perto,
são oito.

oito pernas que sustentariam um sonho de vento,
guardado cuidadosamente no clímax de um romance
que, vidro que é,
um toque e...
e você se foi, lapso de lucidez.

2

domingo, 11 de outubro de 2009

mas, repare - respondeu, jocosa, a borboleta - é tudo tão bonito quando se vê bem de perto!
e fitou o beija-flor nos olhos, de um jeito que o deixou zonzo.
-pois olhe você, pra esse infinito de cores e quedas...
o orvalho que goteja de manhã, a maquiagem amanhecida da bailarina, a alegria,
o ciúme, a ousadia. até a tristeza é bonita.
o rosto marcado pelas batalhas, os ombros insistentemente eretos, os olhos fundos beija-flor...
...de dor, beija-flor. eu trocaria,
um milhão de vezes mais,
o imortal por essa imperfeição que pulsa na simetria.
- você diz isso, querida, porque dá o fora antes da fonte secar.

1

domingo, 27 de setembro de 2009

mas, repare - disse o beija-flor - é tudo desconexo quando se vê bem de perto. um infinito de des-arranjos,
des-pedidas, des-medidas
des-tino... não faz - nem é - sentido.

vaidade e etc.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

peças ordenadas, um acordo. as brancas começam.
- peão quatro rei! - brada o oponente, arqueando a sobrancelha grisalha. um insulto.
the classic one. peão na frente do rei, promessa de um caminho longo e tranquilo. mas, já resmungava adão ao sucumbir à maçã oferecida pela amante, as aparências enganam. por trás de um terno bem cortado e um sorriso elegante, pode-se esconder tantas, tantas coisas. cartas dentro das mangas, camisa, meias... pra quem já sofreu tamanho espancamento ao defrontar-se com a sucessão dos lances, fica o antídoto:
- peão quatro bispo! - e as garras estão à mostra.
assim, com o oponente fisgado logo de início, não há mais sutilezas ou simulações. a batalha promete verter sangue e desonra - e os rodeios, flores e floreios recolhem-se do cenário, ruborizados.

...mas a história não termina por aqui: caso haja a queda de alguma possível máscara, um peão quatro bispo pode denunciar uma inexperiência patética.
cabe agora às brancas interpretarem o teatro, e depois as negras, e assim até as cortinas serem fechadas pelo perdedor - ou, recorrendo ao velho ditado dos enxadristas, por quem errar por último.

na sala de espera

quinta-feira, 16 de julho de 2009

humanos escrevem por milhares de razões. não têm necessariamente de ter algo a dizer.
muitas vezes, escrevi por puro egoísmo, mascarando minhas pretensões mais sujas por trás de personagens - marcadas sutilmente a ferro e fogo em suas ancas jovens.
hoje, silencio. por egoísmo, ou por não ter nada a dizer. no íntimo, sei que é porque voei alto demais, e agora me custa pousar em algo que me dê insônia, rubor ou motivo pra chorar. fiquei arisca (odeio pensar na idéia de substituir essa palavra por 'supérflua'), uma pena - e é na falta dessa que levo um lápis num bolso, e um ilícito noutro.

ela

domingo, 7 de junho de 2009

o ex-namorado, agora melhor amigo, depois de decidir compartilhar a mesma opção sexual, começava discretamente a dividir com ela seu hidratante corporal de morango com chantilly;
assim, seu gato rajado assustou-se e fugiu com uma gata altiva, mais vira-lata ainda, que evidentemente a desprezava. e, é claro que o chuveiro havia queimado - assim como o jantar, e uma porção de cartinhas mal-sentidas de uns amores meio covardes.
aí tinha o emprego, que se não era demissão, era demitida. e o síndico, que se não era tarado, era estrábico.
e havia o pedreiro, aquele gostoso.
e o carinha da biblioteca, que devia ser virgem até de mão na bunda.
- querida, me empresta aquele s...
- nem vem, bicha.
e acendeu o cigarro do amparo e do tédio, olhando o tal pedreirinho da janela e batendo distraidamente as cinzas, que caíam despreocupadas nos cabelos desarrumados de um magrelo qualquer que passava por ali.

eis o sangue:

quarta-feira, 22 de abril de 2009

vocês sabem - eu sei que todos vocês sabem - o que é a vontade de ser Atlas e sustentar o céu com a força dos braços. mas há duas diferenças que devem ser citadas aqui: nós nunca, jamais, conseguiremos sustentar o insustentável; e Atlas fazia desse seu destino. nós não conseguimos.
mas tentamos. trepamos no nosso ego e levantamos nossos braços - fracos e estúpidos. e, enquanto tentamos tirar força do inexistente, pensamos no amor. que é por amor.
mas é por egoísmo. eu. eu. eu. porque eu sou capaz de amar, porque meu amor fugiu.
mas ele não fugiu. por ironia do que costumo chamar de destino, ele está mais perto. podemos sentir que ele acabou de passar por ali. mas não precisa de você. mais uma vez: ele não fugiu; continuou sem você.
fluiu.
e, no auge da bestialidade, enfiamos nossa cabeça na água corrente, e tentamos sumir pelo ralo.
mas ficamos. definhando, remoendo, questionando. por quê, por quê? por quê não mais?
não queremos saber de resposta. nem saber a quantidade de bactérias que há na água parada e suja que nos tornamos. não temos coragem de escrever em primeira pessoa,assumir que a podridão é minha, e não nossa. o Eu fica de lado. esse problema é antropológico. preferimos jogar a culpa pro lado de fora.
você se foi; as cartas acertaram. os poetas acertaram: o pra sempre acaba.
mas eu sei - e meu coração e minha petulância sabem - que você continua aos tropeços, e tem medo de olhar pra trás. eles sabem que você procurou amparo no manipulável, e tenta enchê-lo de você.
e eu continuo aqui, olhando praquela foto que você tirou no dia que nos conhecemos e definhando, e remoendo, e questionando. a minha confusão, a sua perversão. e seus soluços contidos. e seus olhos que, quando os vi pela última vez, já não tinham aquele aroma adocicado, e que se apoderaram do quadro perfeito que tinha de sua última imagem.
E é aqui, vendo seus olhos sem brilho, que não sou mais eu, mas voltamos a ser nós. que insistimos em puxar os dois lados da corda, e que rezamos pro vazio que sobrou não nos engolir.